Covid-19, a solução Química: teremos tempo?

por Silvério Ferreira, Lattes CV: http://lattes.cnpq.br/7042681906158573

Um lacônico levantamento das substâncias químicas que estão sendo desenvolvidas como terapia para a pandemia de coronavírus mostra que “pequenas moléculas” orgânicas apresentam algumas perspectivas imediatas de uso e cura. O último trecho da frase anterior merece atenção pois os medicamentos que estão na “frente da fila” são compostos reaproveitados e já aprovados para uso humano, por muitas razões óbvias.

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Novo vírus Covid-19 era anteriormente chamado de 2019-nCoV – CDC/Reuters

O recente artigo Coronavirus puts drug repurposing on the fast track publicado na renomada Nature Biotechnology entra em detalhes sobre essa questão. Os ensaios clínicos (conjunto de procedimentos de investigação e desenvolvimento de medicamentos) são uma enorme perda de tempo – levando em conta o vírus que temos a combater, é claro – e se eles já foram feitos é uma grande vantagem, mesmo que a droga tenha sido desenvolvida com outros fins e não tenha (ainda) efetividade para o Covid-19. Um ajuste perfeito precisa ser feito e este é um ponto de partida espetacular para a ciência (Química!) moderna.

O que temos, então? O composto químico mais avançado provavelmente é o remdesivir, cuja estrutura é apresentada abaixo.

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Estrutura química do composto remdesivir.

Esta substância está em desenvolvimento há alguns anos como uma terapia com vírus RNA – foi originalmente desenvolvida para o Ebola e foi testada contra uma lista completa de vírus RNA de fita simples, apresentando sucesso contra as infecções. O remdesivir é um antiviral de espectro amplo. É um medicamento desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences, dos Estados Unidos. Os estudos desse composto inclui os Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) e da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). Notável é que esta substância também se mostrou viável contra o novo Covid-19 faltando ainda um ajuste (químico) óbvio e que cientistas de Wuhan, na China, publicaram na Nature resultados dos primeiros testes que são esperançosos.

O que devemos compreender é que qualquer novo medicamento de novas substâncias químicas contra o Covid-19 (ou qualquer novo patógeno) levará anos, e não há maneira de contornar isso. De qualquer forma, as chances são de que nós (e eu quero dizer “nós como espécie”) estaremos combatendo esta pandemia sem nenhuma arma farmacológica particularmente surpreendente. Eventualmente, teremos alguns, mas eu aconselho as pessoas, especialistas e políticos a não ficarem empolgados com as perspectivas de que novas terapias venham subindo a colina para nos ajudar. As chances de isso acontecer a tempo de fazer qualquer coisa sobre o surto atual são muito pequenas. Iremos por meses, anos, com as opções terapêuticas que temos agora.

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Homem usando máscara protetora contra o Covid-19 em San Fiorano, na Lombardia, segura um buquê de flores. A região, no norte da Itália, é a mais afetada pelo novo coronavírus no país. — Foto: Marzio Toniolo/via Reuter

Olhe ao seu redor: o que temos hoje é com o que temos que trabalhar e esta compreensão nos remota para o mais nobre pensamento de Lavoisier: “tudo se transforma”, ou, transformarseá para que haja vida.

Como desenlace, nos restará um único questionamento: teremos tempo?


CITAÇÃO 

Incentive este trabalho fazendo a citação do post:

SILVA FILHO, S. F. Covid-19, a solução Química: Teremos nosso próprio tempo? Disponível em: <https://quimicaexplica.wordpress.com/2020/03/18/covid-19-a-solucao-quimica-teremos-nosso-proprio-tempo/> Acesso em (data que você está acessando o site, ex.: 20 abril 1988)